Tribuna | 07 de outubro de 2015 | Foto: Brunno Covello/SMCS

A senhorinha era daquelas que puxa assunto fácil. Logo que embarcou no biarticulado, lá no Capão Raso, já começou a falar comigo, comentando sobre o calor insuportável e a descoberta do mercadinho no bairro. Sem muito o que colaborar com o assunto, apenas concordei e fiquei prestando atenção no papo que ela emendou rapidinho com a outra mulher que embarcou em seguida.

A passageira que entrou depois no busão estava toda esbaforida. Tinha acabado de visitar o pai no hospital. Ele teve um AVC e era ela a encarregada de cuidar dele. Tava na correria, pagando as contas do pai e pra conseguir dar conta de tudo teve que largar o emprego de digitadora num banco.

A senhorinha ficou interessada e na vida da mulher e perguntou se ela era casada. “Sou casada há 30 anos. E tô com 50”, disse num tom de desânimo. Logo descobri a razão da falta de empolgação:

– Tô passando o ‘cabo da boa esperança’ e tô de saco cheio do meu marido. Conheço o cara desde os 14 anos, me casei com 18. Já mandei o cara ir pastar, mas ele não quer…

– Mas como é que você vai mandar ele embora? Quem é que vai te sustentar?

– Me sustentar? Ele não trabalha. E eu me sustento, arrumo emprego, oras. Coloco minha outra irmã pra cuidar do meu pai.

– Não dizem que “se é ruim com ele, pior sem ele”…?

– Que nada. Ele mente. Fiquei 30 anos e só agora descobri que ele mente muito. Não quero mais. O cara não ajuda em nada e ainda é um mentiroso!

Foi então que outra moça que estava por ali, também de olho no papo, arrematou e deu um cala boca na senhorinha que acha que mulher precisa de homem pra sustentá-la: Antes só do que mal acompanhada!!

Leitura de busão: Ensaio Sobre a Cegueira. Autor: José Saramago (Literatura Estrangeira)