Tribuna | 29 de janeiro de 2014 | Foto: Divulgação/Colégio Madalena Sofia

Quando e como começar a tratar sobre dinheiro com as crianças? Este é um dilema com que os pais sempre se deparam e que, se encaminhado da maneira correta, pode fazer toda a diferença para o futuro dos filhos. É por isso que os especialistas defendem que a educação financeira deve ser abordada desde cedo, em casa e na escola.

“Os pais têm um tabu, acham que é cedo para falar de dinheiro com a criança, até porque eles não tiveram a educação financeira na infância. Acontece que as crianças estão cada vez mais precoces em tudo”, avalia o especialista em finanças pessoais, Altemir Farinhas, que já escreveu um livro sobre o assunto, destinado ao público infantil.

Ele defende a participação das crianças nas discussões do orçamento familiar e a entrega do dinheiro pelos pais, para que elas aprendam desde cedo a lidar com os recursos, as conquistas e as frustrações trazidas pelo dinheiro. O ideal, de acordo com ele, é começar abordar o assunto a partir dos seis anos. “Com esta idade a criança já está madura para ter todos os estímulos, a lidar com o dinheiro e encarar as frustrações de gastar tudo e ter que esperar até receber novamente. É uma matéria bem abrangente, que traz a generosidade e a honestidade”, explica. Acompanhando as discussões do orçamento da família, a criança passa a ter noção dos compromissos e contribui para a definição dos sonhos e metas.

“Os filhos ficam sabendo quanto a família gastou com supermercado, na escola, de luz, e assim a família explica quais os compromissos. Quando a mãe negar algum pedido será um não diferente, ela já pode explicar o porquê não”, diz o especialista.

Mas quanto dar ao filho?
Esta é outra dúvida na hora de planejar o pagamento da mesada e que Farinhas orienta a definir de acordo com as condições financeiras de cada família. Ao invés de mesadas, ele ainda indica o pagamento de “semanadas”, para acompanhar a noção de tempo dos pequenos. “Dar um real por ano é um mito, isso não se aplica. Tem que ser de acordo com a capacidade financeira da família, depende do mundo onde a criança vive. Por isso abordar também a poupança, a generosidade. Não é para torrar o dinheiro”, observa.

Estímulo
A orientação dos pais no momento das crianças gastarem o dinheiro merece atenção. O ideal é estimular que ela reserve uma parte do que ganhou para poupar, mas sem interferir no que ela vai comprar com o restante, mesmo que seja brinquedos, guloseimas ou gibis. “Isto é algo em cadeia, tem que acontecer durante anos, para a criança se torne um adolescente melhor que muitos adultos em relação à educação financeira. Quando ela começar a trabalhar e receber o primeiro salário, não vai detonar”, garante o especialista.

 

Entrando nas escolas
Defendida por especialistas, a abordagem da educação financeira nas escolas também virou um projeto de lei proposto pelo vereador Dirceu Moreira (PSL). A proposta, que está tramitando na Câmara Municipal de Curitiba, prevê que a disciplina de Educação Financeira seja incluída na grade curricular das escolas municipais a partir do 6.º ano do Ensino Fundamental.

“É necessário que crianças e jovens aprendam desde cedo a educação financeira. A escola é o ambiente mais completo e propício para educá-las financeiramente, visando a construção de uma sociedade mais consciente sobre o uso do dinheiro”, justifica o vereador.

Enquanto isso, o trabalho do tema parte da iniciativa das instituições, que já despertaram para a necessidade de educar as crianças a lidarem com o dinheiro. É o que acontece no Colégio Madalena Sofia, onde há três anos o assunto é abordado nas salas de aula do 1.º ao 5.º ano do Ensino Fundamental, com a proposta de se estender até o Ensino Médio. “É um assunto interdisciplinar, que parte de situações concretas, do cotidiano. Trabalhamos qual o sonho das crianças e o que elas precisam para realiza-los”, conta o diretor do Colégio, Ivo José Triches.

Controle
Triches acredita que a escola deve “dar conta” desta questão, e precisa, especialmente, despertar o controle entre as crianças. “Vivemos hoje em dia o vício do consumo e se não aprendermos a controlar nossas vidas, não vai interessar o quanto ganhamos, vamos estar sempre no vermelho. Queremos mostrar para os alunos que dá para realizar o que se quer, mas é preciso planejar e ter controle da vida financeira”, destaca.

No início do ano os alunos definem seus sonhos e traçam metas para conquista-los. No fim do ano toda a turma passa uma tarde no shopping para comprar aquilo que desejaram.

 

Da ponta do lápis ao sonho
Para Reinaldo Domingos, que criou uma metodologia para trabalhar educação financeira nas escolas utilizada por mais de 400 mil crianças, é importante que o conceito de educação financeira – que precisa ser trabalhada em todas as disciplinas – também faça parte do cotidiano dos professores e dos pais. Assim, ele indica quatro passos para o sucesso financeiro das famílias: diagnosticar, sonhar, orçar e poupar.

O diagnóstico é a verificação de todos os gastos e despesas da família, que permite identificar também quais são os sonhos, quanto eles custam e o que é preciso fazer para realiza-los. No orçamento eles passam a se tornar realidade.

“Como priorizo o sonho? No orçamento. Tem que tirar por primeiro lugar o dinheiro para a realização do sonho, e poupar, investir. É preciso priorizar o sonho antes das despesas”, orienta. Separando os recursos para a realização do sonho, o último passo é o investimento do dinheiro, que pode ser feito em poupança, títulos públicos ou previdência privada, de acordo com o prazo de realização.

Independente de criança ou adulto, Domingos indica ainda a criação de três cofrinhos, para investimentos nos sonhos de curto, médio e longo prazo.

 

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