Tribuna | 28 de outubro de 2015 | Foto: Brunno Covello/SMCS

Não vou me estender. Só digo que a colega Adriana Brum é, como eu, daquelas passageiras de busão que se assumem interessadas no papo alheio, seja ouvindo ou lendo a conversa do pessoal:

“Costumo brincar que se pudesse escolher um superpoder, seria surdez seletiva: ouvir só o que quero. Mas dificilmente ativaria esse dom dentro do ônibus, onde posso involuntariamente ouvir histórias e conversas (mesmo que volta e meia eu me arrependa).

Mas esses dias fui trabalhar em São Paulo, em que experimentei uma rotina que vamos demorar a ter em Curitiba: usar o metrô como meio de transporte. E, surpreendentemente, me vi privada do ti-ti-ti que qualquer viagem de ônibus nos oferece por aqui e minha surdez seletiva seria inútil. Melhor seria contar com um olho biônico.

Por lá, nada de conversar com o colega ou tagarelar em voz alta no telefone enquanto se aguarda chegar ao destino: em vez das cordas vocais, os músculos que mantém o diálogo são os dos polegares que digitam freneticamente em aplicativos de redes sociais nos smartphones. Traduzindo: eles são viciados em WhatsApp.

Mas, engana-se quem pensa que o aparente silêncio nos vagões me privou da vida alheia. Ninguém parece se importar em manter a discrição e as telas dos celulares ficam expostas a quem quiser ler. Assim, soube que o Gabrielzinho tem comido terra na escola; acompanhei a discussão do Junior com a Karol porque ele não queria viajar no feriado. Ri por dentro dos memes trocados do grupo ‘Nóis é f…’ no celulardaquele moço de camisa de flanela xadrez na Linha Amarela e vi com a moça de microvestido nas fotos da formatura da Gabi (teve muito uísque, é tudo que conto).

Acompanhei também uma discussão de um engravatado com o ‘Fernando TI’ sobre o orçamento para atualizar os sistemas de todo o escritório. Achei os valores exorbitantes, melhor não comentar. Até chegar minha parada, eles não tinham chegado a um acordo. Com mais uns dias em São Paulo, eu flagraria algum nude. Mas não sei se estou pronta para tanta invasão de privacidade. Ainda prefiro as conversas em voz alta do busão.”