Tribuna | 25 de abril de 2014 | Foto: Divulgação

Neste domingo (27), os papas João Paulo II e João XXIII serão canonizados pelo papa Francisco e a partir de então passam a ser considerados santos. Quem conviveu com o futuro São João Paulo II garante que sua santidade se fez presente por toda sua trajetória e a canonização é apenas uma confirmação daquilo que foi feito durante 27 anos de papado e 84 anos de vida.

O momento é visto com grande importância para a Igreja Católica e fiéis de todo o mundo que pediram pela canonização de Karol Wojtyla quando ele morreu em 2005. Para a comunidade polonesa no Brasil, a canonização também é de grande expectativa, principalmente pela importância de João Paulo II na história do país.

“João Paulo II está sendo considerado o herói, o maior polonês da história da Polônia. Com seu ensinamento não exclusivamente religioso, mas também sua atuação social, sua intervenção um pouquinho política, que ajudou para que a Polônia se libertasse”, avalia o Padre Zdzislaw Malczewski, reitor da Missão Católica Polonesa no Brasil, que faz uma análise de todo o papado de João Paulo II.

Tribuna – Que avaliação o senhor faz do papado de João Paulo II?
Padre Zdzislaw Malczewski: Fazer uma avaliação do pontificado de João Paulo II é muito complicado por várias razões. A primeira é que depois de 400 anos de pontificado dos italianos foi eleito um papa do bloco comunista sob influência soviética. Por outro lado o Karol Wojtyla era diferente dos seus veneráveis antecessores, os papas italianos, porque ele não tinha nenhum conhecimento da Cúria Romana. Então veio alguém de fora, com outras visões da igreja com assuntos internos, como também do relacionamento da igreja com os estados, os países, as nações.

Quando olhamos os 27 anos de pontificado de João Paulo II, observamos que entrou muita coisa nova no relacionamento entre a igreja com os estados. As próprias visitas que o papa fazia, chamadas visitas apostólicas – ele percorreu mais de 120 países – isso também aproximou o povo. Um simples católico da América Latina, América do Norte, Austrália, Nova Zelândia passou a saber quem era o papa, porque o papa se tornou mais próximo do povo.

E olhando da nossa Curitiba também é uma coisa excepcional. Quem escolheu a cidade de Curitiba para ser visitada foi ele. Não foi uma decisão da Conferência Episcopal que preparava a viagem, foi o papa que perguntou “onde fica Curitiba? Quero visitá-la”. O presidente da Conferência respondeu que não estava no trajeto e ele disse “não faz mal, eu quero visitá-la”. Para nós, que moramos em Curitiba, os curitibanos que viemos de fora, é um privilégio porque o próprio pontífice escolheu a cidade para ter um encontro aqui.

Mudou muita coisa. Ele reformou o Direito Canônico da Igreja, a lei interna da igreja; pediu a preparação do novo catecismo católico. Certas coisas foram atualizadas.

O João Paulo II é reconhecido como criador da Jornada Mundial da Juventude, era chamado o Papa do Jovem, que começou com um encontro de jovens em Roma e depois decidiu que se realizasse de dois em dois ou três em três anos. Percebemos isso no ano passado, no Rio de Janeiro, quanta coisa maravilhosa aconteceu com quase 4 milhões de jovens em Copacabana fazendo sua festa sem violência, sem coisas pejorativas que muitas coisas acontecem em outros ambientes de jovens. A próxima Jornada vai acontecer em Cracóvia, na cidade de João Paulo II. O papa Francisco já escreveu na carta aos jovens informando que o papa, já São João Paulo II, vai ser considerado o patrono das jornadas mundiais.

 

O que representa a transformação de João Paulo II em santo?
Não é a própria canonização que vai fazer do João Paulo II um homem santo. É apenas a igreja, pela voz do Santo Padre, nos dizendo que este homem, durante toda vida, fazia esforço para levar a sério aquilo que nos diz a Bíblia.
Quando a gente participava das audiências com João Paulo II, do rosto dele emanava uma serenidade, uma paz, uma luz. A gente percebia que aquele homem levava uma vida sobrenatural muito intensa, uma vida de oração. A canonização é uma festa para o povo católico, a igreja reconhece que temos um intercessor diante de Deus. Nós não adoramos santos, nós admiramos, e procuramos seguir o exemplo da vida deles na nossa vida católica, na nossa vida cristã cotidiana.

 

Por se tratar de dois papas, existe algum diferencial em relação às demais canonizações?
Os peregrinos do mundo inteiro, no dia do enterro de João Paulo II, estavam gritando lá na Praça de São Pedro e colocavam faixas escrito: ‘santo, súbito!’ que significa ‘santo, já!’. Quer dizer, o próprio povo reconheceu a santidade de João Paulo II. A maneira de a Igreja fazer o processo de canonização antes de fazer a beatificação é simplesmente uma resposta ao desafio que o próprio povo fiel estava fazendo à Igreja.

 

A relação da comunidade polonesa com a Igreja ainda é forte?
João Paulo II está sendo considerado o herói, o maior polonês da história da Polônia. Com seu ensinamento não exclusivamente religioso, mas também sua atuação social, sua intervenção um pouquinho política que ajudou para que a Polônia se libertasse.
Dizem que o comunismo tinha algumas coisas boas, mas era doloroso. E o Papa com sua visita em 1979, quando terminava sua homilia em Varsóvia, ele encerrou sua oração dizendo ‘que desça o Espírito Santo sobre esta Terra’ e acrescentou ‘sobre esta Terra’. A partir daquela oração o povo polonês mudou sua mentalidade e sua maneira de viver. Já começaram a respirar espiritualmente a sua libertação. E depois veio toda a transformação sem derramamento de sangue. Aconteceu uma mudança política, social, econômica no país e depois o comunismo morre e nem foi dado um tiro, nem morreu ninguém. É a intervenção de Deus.
Quando o papa fazia visitas apostólicas ele sempre se encontrava com a comunidade polonesa. Até nos países onde a comunidade polonesa é bem pequena.

 

E o que virá daqui para frente?
Eu acredito que irão acontecer muitos milagres. Quando o povo busca ajuda de Deus e temos tantos intermediários que chamamos de santos e santas, certamente teremos muita ajuda espiritual para o povo brasileiro. Creio que vão surgir novas igrejas e novas capelas dedicadas a São João Paulo II. Temos no Parque João Paulo II aquela casinha de tábuas de madeira que os primeiros imigrantes fizeram no início do século 19 e ela se tornou uma capela. As pessoas chegam, turistas de várias regiões do país, e a primeira coisa quando entram fazem o sinal da cruz. Não podemos eliminar e dizer que é apenas um bosque de preservação dos imigrantes poloneses, mas também vai ser um centro espiritual de João Paulo II.

 

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