Sacola itinerante promove envolvimento de crianças e pais a partir dos livros

Folha de Londrina | 22 de maio de 2009

“Pare para ler”, é isso que querem dizer os estudantes da Escola Municipal Ditmar Brepohl, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), quando utilizam uma “mãozinha” colorida para chamar seus familiares a um momento especial. Em uma sacola, eles levam para casa livros, gibis e revistas que são compartilhados entre a família e criam o hábito da leitura conjunta.

O projeto “Sacola Itinerante da Leitura em Família” começou há pouco mais de um mês e já conquistou as 530 crianças da educação infantil e do ensino fundamental que estudam na escola. Cada turma possui uma sacola, composta por 13 publicações de variados conteúdos, que fica dois dias na casa de cada aluno. A proposta é expandir às famílias o acesso à literatua, bem como integrar pais e filhos.

Nesse tempo, eles podem escolher qual será a leitura, sem compromisso com notas nas disciplinas. Tudo é registrado em um caderno, por meio de depoimentos de pais e alunos, que contam como foram os dois dias junto com o material. Quando a criança ainda não sabe escrever, desenhos mostram como foi a experiência. Em muitos deles, imagens de toda a família mostram que o objetivo foi alcançado.

Fora do caderno de registro, as professoras já percebem os resultados no desenvolvimento dos alunos. Os benefícios vão desde a atenção nas aulas até a melhoria na interpretação de textos e responsabilidade nos compromissos com a escola. Os reflexos também saem da sala de aula e chegam às famílias. “Aqui é só uma semente que estamos plantando. É uma marca na vida deles, que eles não vão esquecer, principalmente os momentos que vivem em casa, com os pais”, afirma a professora de apoio pedagógico, Erica Meirelles.

Prova disso são os depoimentos dos pequenos leitores. “Foi muito bom ler com a minha família, gostei das revistas e dos livros”, lembra Rebeca, 9 anos. “Eu não lia muito com a minha família e comecei quando levei a sacola para casa”, conta Gabrielli, 7. “Aprendi a ler mais”, diz Isabella, 10.

As professoras comemoram ainda o envolvimento da comunidade com as atividades escolares. A grande surpresa aconteceu na comemoração pelo Dia das Mães, quando foi superado o número de participantes esperados para o evento. “A comunidade está começando a entender que a escola é nossa. Estão se apropriando dela”, avalia a mãe Kelly Regina Camargo dos Santos.

Personagens atraem alunos à biblioteca
Desde o lançamento do “Sacola Itinerante”, no final de abril, vários “convidados ilustres” já participaram do projeto. Pessoas fantasiadas como Emília e Visconde de Sabugosa, da obra Sítio do Pica Pau Amarelo, escrita pelo autor brasileiro Monteiro Lobato, fazem a alegria das crianças. Para as professoras, esse tipo de representação foi o fator fundamental no envolvimento dos alunos com o projeto.

Além deles, vários personagens já passaram pela biblioteca durante a hora do conto, realizada duas vezes por semana em cada turma. Esse é o momento que os alunos têm para soltar a imaginação. “Os estudantes ficam esperando, pois a gente usa sons, cenários e figurinos especiais”, conta a professora e contadora de histórias, Irineide Bochelof.

Enquanto não levam a sacola para casa, as crianças têm acesso livre aos livros da biblioteca, que não param nas prateleiras. A previsão é que, até dezembro, todos recebam o material. “Quero levar logo a sacola para casa para ler com a minha mãe”, aguarda o estudante Yan.

A ideia surgiu durante uma capacitação a professores da rede municipal. A professora e contadora de história da biblioteca da escola, Carla Beatriz Camargo, acreditou que o projeto iria complementar as ações de leitura já desenvolvidas na instituição.

Muitos dos livros utilizados foram doações da comunidade, que apostou na ideia. A Secretaria Municipal de Educação também disponibilizou volumes.

A diretora da escola, Ema Maria Kratsch, garante que projetos como esse são possíveis. “As pessoas pensam que é um gasto grandioso, mas não é. É também amor é muita boa voltade.”

‘Mãozinha’ chama para ler
A auxiliar de produção Cristiane Pinto, 25, lembra que não entendeu o que seu filho Gustavo Nunes, 9, queria quando mostrou a ela sua mãozinha colorida. “Eu estava fazendo o jantar e ele apontou a mãozinha para mim. Disse que devia parar o que estava fazendo para ler”, conta. Assim que terminaram o jantar começaram a leitura. “Naquele dia ficamos lendo por duas horas. Achamos muito interessante uma matéria sobre gelatina”, conta.

Assim como na casa de Cristiane, os assuntos científicos são os que mais chamam a atenção dos leitores. A mãe, que já tem o hábito da leitura, afirma que a participação no projeto estimulou ainda mais o contato do filho com os pais. “A gente desliga a TV, senta e lê”, afirma.

Na casa da professora Kelly Regina Camargo dos Santos, 30, a sacola itinerante é esperada com ansiedade pelos seus dois filhos, matriculados na segunda e quarta séries do ensino fundamental. Nenhum dos dois ainda recebeu o material, mas, enquanto isso, participam do momento da leitura todas as noites. “Quando eles levam os livros da biblioteca tenho que ler antes de dormir. Antes de devolver o volume leio 15 vezes a mesma história”, conta.

Para ela, além do hábito da leitura, a importância do projeto está na aproximação entre pais e filhos. “Quando a família participa, fortalecem os vínculos”, afirma.