Segundo Ação Social, perfil dos moradores de rua mudou. Há mais mulheres e até pessoas com curso superior

Folha de Londrina | 21 de maio de 2009

A queda nas temperaturas aumenta em aproximadamente 30% a procura por vagas no albergue mantido pela Fundação de Ação Social de Curitiba (FAS). No inverno, a capacidade de atendimento chega ao máximo, com a ocupação diária de todos os 240 leitos disponibilizados no local. O problema, no entanto, é que mesmo antes do frio se tornar mais intenso o movimento já era grande no abrigo. A média registrada foi de 230 pessoas utilizando o espaço a cada dia -índice igual ao alcançado no último final de semana, quando ocorreu a primeira geada na Capital.

Para a gerente técnica da Central de Resgate da FAS, Nádia Cristina Moreira, o aumento nos atendimentos se deve a uma mudança no perfil dos moradores de rua. De acordo com ela, o consumo de drogas, em especial o crack, levou para as ruas as mulheres -até então quase inexistentes entre esta população- e pessoas mais jovens, com problemas em suas famílias ou nas comunidades onde moram. Anteriormente, o morador de rua era a pessoa com mais de 40 anos de idade e que em alguns casos optou pela vida nas ruas. “Em 80% é questão da droga, com idade entre 18 e 26 anos. Temos casos de pessoas com curso superior e que estão aprendendo a viver na rua. É uma mudança drástica, atípica”, conta.

O acolhimento dos moradores de rua é centralizado pelo município, que conta com outras duas instituições parceiras no atendimento ao público. O Albergue São João Batista e o Lar Esperança atendem casos específicos relacionados à saúde. Parcerias com organizações de tratamento da dependência química também complementam o atendimento. Além do pernoite, em que podem se alimentar e fazer a higiene pessoal, os usuários recebem orientações de assistentes sociais. Muitos recusam a proposta de acompanhamento e deixam o local durante o dia, retornando apenas para dormir.

“A Central de Resgates serve para atender o público que mora na rua. Se cinco indivíduos estão usando drogas em um ponto da cidade, acham que é nosso papel, mas é de segurança pública, se está passando mal, é questão de saúde, não é da política de assistência social”, esclarece Nádia, sobre uma possível confusão relacionada ao real papel da Central de Resgates.

O encaminhamento ao albergue é realizado a partir de três situações. Educadores e asssistentes sociais da central vão às ruas e seguem roteiros pré-definidos em locais de concentração constante de moradores de rua, como o Terminal do Guadalupe e as praças 19 de Dezembro, Tiradentes e Rui Barbosa, para realizar abordagens ou verificam as denúncias recebidas pela Central de Atendimentos e Informações 156. Em outro caso, os próprios moradores de rua se dirigem ao albergue, na chamada procura espontânea pelo usuário.

Em março deste ano, foram feitos 889 atendimentos a partir de denúncias da Central 156, 1.549 abordagens nas ruas e 5.414 recepções por meio da procura espontânea do usuário. No mesmo período, 5.835 pessoas utilizaram o albergue e 82 aceitaram continuidade do acompanhamento, com busca à família ou encaminhamento a instituições de desintoxicação.

Ampliação
Para solucionar o problema da grande procura pelo abrigo, especialistas estão analisando propostas de melhorias, que serão apresentadas até agosto deste ano. Na visão de Nádia, a ampliação do prédio não é a saída, mas sim a descentralização do atendimento para as outras centrais. “Este não é mais um problema do anel central de Curitiba, temos grandes regionais com grandes centros. Também precisamos de um trabalho educativo com a população, sobre a esmola. Isto contribui para que os moradores permaneçam na rua para comprar mais droga. Estamos financiando o narcotráfico desta forma”, afirma.

‘Eu não tinha a malícia da rua’
Usuário do albergue da FAS há uma semana, Roberto (nome fictício), 27 anos, faz parte do novo perfil de moradores de rua. Ele deixou a casa de sua família, em Curitiba, após sete meses preso por receptação. A dependência química dificultou o relacionamento com os parentes e o levou às ruas da Vila Parolin, onde morou durante seis meses.

Antes da vida nas ruas, Roberto conta que cursava o terceiro período do curso de Direito em uma faculdade da Região Metropolitana de Curitiba e em seu trabalho como morotista conheceu quase toda a América Latina, realidade diferente da que encontrou fora de casa. “Eu andava pela Vila Parolin, Vila Hauer, pedia comida, dinheiro e às vezes roubava”, lembra. A maior dificuldade, conta, era na hora de dormir, quando enfreitou noites de chuva e frio. “Eu não tinha a malícia do pessoal da rua.”

O contato com a FAS só aconteceu depois que os educadores sociais esclareceram sobre o trabalho realizado. Até então, ele não sabia para onde iam os moradores de rua que aceitavam embarcar no veículo da fundação. Desde que foi ao albergue, iniciou um tratamento de desintoxicação e aguarda encaminhamento para uma entidade parceira. “Se não conseguir vaga, volto para as ruas e venho ao albergue. Aqui tenho onde deixar minhas roupas e tomar banho”, afirma.