Médicos cobram envolvimento de pacientes, que têm dificuldades para abandonar antigos hábitos 

Folha de Londrina | 08 de maio de 2009

A primeira manifestação de alergia no pequeno Jefferson Matheus Braga, 8 anos, aconteceu quando ele tinha apenas um ano e meio de idade. De repente, ele apresentou uma laringite, que veio acompanhada de diversos problemas.

“Ele tinha o nariz trancado o tempo todo, de dia, de noite. Também tinha crise de asma”, lembra a mãe, a professora Fátima Aparecida Santos, 30. Tempos depois, uma reforma em casa resultou em outra crise de alergia e a descoberta do principal sintoma de seu problema. “Sempre afeta o olho. Quando o Jefferson entra em contato com o que seu organismo não aceita, ele fica com conjuntivite”, conta Fátima.

Após quatro anos de tratamento, ele conseguiu estabilizar a alergia. Para isso, tem na ponta da língua uma série de restrições para controlar a alergia. Agora, o bem-estar de Jefferson só é garantido com uma rotina cheia de cuidados. “Não posso entrar debaixo da cama, mexer com gato, nem comer camarão. Mas assim é bem melhor”, conta o garoto.

Diferente de Jefferson, nem todos os pacientes com o diagnóstico de alergia conseguem se adaptar. Para a presidente regional da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai), vinculada à Associação Médica do Paraná, Cinara Roberta Braga Sorice, o principal desafio no tratamento da doença é o envolvimento dos pacientes, que nem sempre estão dispostos a abandonar seus hábitos antigos. “É difícil ele incorporar o tratamento em sua rotina diária. Ele acha que está bem e que pode parar com o procedimento, mas isso piora o quadro”, afirma.

Doença causada por fatores hereditários, a alergia é causada pelo contato do organismo com substâncias estranhas, chamadas pelos médicos de alérgenos. Quando ocorre esse contato, o organismo é sensibilizado, ou seja, afetado pela substância. A partir de então, cria anticorpos de proteção aos elementos, que são responsáveis pelos sintomas da doença. Entre as alergias mais comuns estão a asma (que atinge cerca de 10% da população), rinite alérgica crônica (que afeta 30%), sensibilidade a alimentos e irritação na pele.

Não existe idade certa para a manifestação de uma alergia. O contato com determinado alérgeno ou fatores hereditários favorecem a predisposição da doença. De acordo com Cinara, pessoas sem nenhum familiar alérgico têm entre 10% e 20% de chances de desenvolver a doença. Quando um dos pais convive com o problema, a probabilidade passa para 40% a 50% e sobe para até 80% quando ambos são alérgicos.

Comida
Nas crianças, os casos de alergia mais frequentes são relacionados à alimentação, como sensibilidade ao leite, ovos, trigo -primeiros alimentos oferecidos na infância-, mas que se perdem com o avanço da idade.

O leite materno é fundamental para a proteção dos pequenos às alergias. Por isso, recomenda-se que seja o único alimento até os 6 meses de idade, seguido pelo leite de vaca no primeiro ano de vida, ovos aos 2 anos e peixes a partir dos 3. Já, entre os adultos, são comuns a asma e a rinite alérgia. Nessa faixa etária, as reações alimentares, como a frutos do mar e amendoim, por exemplo, são mais graves e persistentes.

Doença não tem cura
O tratamento da alergia não cura a doença, apenas controla os sintomas. Em alguns casos, a dificuldade está na definição de qual alérgeno é responsável pela manifestação dos sintomas. “É quando o organismo não produziu o anticorpo específico, não ficou exposto o suficiente para criá-lo”, explica a presidente regional da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai), Cinara Sorice. A médica também apresenta a situação inversa. “Em 50% das vezes, o paciente tem manifestação (alérgica) e nos outros 50% não tem. Nem toda a vez vai precisar evitar o alimento”, conta.

Apenas o diagnóstico preciso determina o tratamento correto. Caso contrário, complicações trazem prejuízos à saúde do paciente, e em casos mais graves como asma e choques anafiláticos, pode chegar à morte. “Influencia bastante na qualidade de vida. Quanto mais cedo o início do tratamento, maior é o sucesso”, garante.

Ontem, no Dia Nacional de Prevenção da Alergia, a Asbai promoveu uma série de mobilizações. Profissionais estiveram nos hospitais de Clínicas, Pequeno Príncipe e Cajuru, para alertar sobre a importância do diagnóstico, tratamento e prevenção.