Folha de Londrina | 27 de março de 2009

Às quintas-feiras, o Paço Municipal de São José dos Pinais (Região Metropolitana de Curitiba) fica movimentado. Moradores de todas as regiões da cidade fazem fila na entrada do local, com toneladas de materiais recicláveis. Eles trocam pilhas de papel, papelão, garras de plástico, embalagens de vidro e outros produtos por flores da estação.

Semanalmente são recolhidas cerca de seis toneladas de lixo reciclável. Dois quilos do material equivalem a uma muda de petúnia, sálvia, vinca ou celosia. Todo o lixo arrecadado é vendido para empresas de reciclagem e os recursos oriundos com a negociação são direcionados à Associação de Proteção à Maternidade e Infância (APMI) do município.

É raro quem volte para casa levando apenas uma muda de planta. Com os materiais acomodados no porta-malas de seus carros ou até em carrinhos de mão, os moradores da cidade alcançam marcas de 20, 60 quilos. Quando o quintal de casa já está florido o suficiente, o lixo é entregue pelos moradores, que recebem vales para trocar em outra ocasião.

Conscientização 
A professora aposentada Cealice Marlene da Cruz Teterycz, 58 anos, participa do projeto desde o começo. Ela aguarda a disponibilização das plantas de inverno para realizar a troca das mudas em seu jardim. Mesmo assim, continua a levar os materiais recicláveis recolhidos por toda a família. “Às vezes venho só deixar o lixo. É importante porque, mesmo ganhando a flor, a gente se conscientiza sobre o meio ambiente”, afirma.

Engajada na prática da reciclagem há oito anos, a adminstradora Isabel Cristina de Andrade Ramos, 38, troca seu lixo por plantas há três. Ela aproveita a iniciativa para complementar as ações que realiza em casa e para educar desde cedo os filhos Rafael, 5, e Letícia, 1, sobre a conservação do meio ambiente. Ontem, ela levou os dois para escolher as novas flores que irão decorar o jardim. “Fiz curso de administração com ênfase ambiental, estive no lixão e vi, sei como é. O amanhã é deles e por isso estou os preparando para o futuro”, conta.

As professoras Aderli Terezinha, 42, e Claudinéia Abondancia, 27, também aproveitam o projeto para trabalhar a educação ambiental entre seus alunos. Os estudantes do Ensino Fundamental ajudam na separação do lixo e participam da decoração da escola com as flores. “Eles já estão bastante sensibilizados. A gente percebe o cuidado deles em sala de aula, na organização”, garantem.

Com o constante entra-e-sai de gente que leva lixo ao Paço, o responsável pelo horto, Luiz Carlos Ramos, conhecido como Carlinhos, não tem folga. Ele perde as contas de quantas pessoas passam pelo local nas quintas-feiras, mas não esquece de quantas plantas são entregues por semana. “São cerca de 1,5 mil mudas”, diz. Ele conta que recebe apenas materiais entregues por pessoas físicas, uma vez que as empresas são responsáveis pelo encaminhamento de seus lixos.

Realizado há 13 anos, o projeto conquistou os moradores da cidade. Prova disso é que passou por diversas gestões, com apenas modificações para melhorias. O secretário Municipal do Meio Ambiente, Jair Melo, define a troca de lixo por flores como um projeto ambiental, mas também com cunho social, pois envolve a comunidade no processo e beneficia pessoas de baixa renda.

Para a próxima inovação no programa, a secretaria pretende estender a abrangência da iniciativa. Além de descentralizar os postos de troca, o objetivo é criar uma coorperativa de catadores de papel. “A flor é mais uma forma de sensibilizar a população, mas temos que tratar o lixo como um produto que vai ter um retorno para nós. Queremos principalmente um retorno para os agentes ambientais, nossos catadores de papel”, afirma o secretário.