Conheça a riqueza da vida caiçara

Roteiro turístico leva o visitante a comunidades nativas e experiências culturais enriquecedoras

Gazeta do Povo | 29 de julho de 2011 | Foto: Carolina Gabardo Belo

Mar, areia e a curtição na beira da praia são apenas parte das atrações do litoral do Paraná. A região também guarda uma rica manifestação cultural. Ao chegar em uma localidade, é possível conhecer, além das belas paisagens, comunidades que têm muito a mostrar para os visitantes.

Tanto nas ilhas pouco visitadas quanto nas cidades mais movimentadas, como Paranaguá, Guaraque­çaba ou Pontal do Paraná, a cultura caiçara ainda passa despercebida entre as paisagens. No entanto, ignorar essa riqueza significa não saber da própria história do estado. “Conhecer a cultura caiçara é conhecer nossa raiz, as manifestações autênticas do povo do litoral, que muitas vezes não tem a oportunidade de se manifestar, de mostrar sua produção nem sua maneira de viver”, avalia o dramaturgo e ex-secretário municipal de Cultura de Antonina, Rafael Camargo.

O termo caiçara designa as comunidades tradicionais, fruto da miscigenação entre indígenas e colonizadores, que ainda vivem em contato íntimo com a natureza, dependentes da pesca e da agricultura. Apenas na baía de Guaraque­çaba são cerca de 50 comunidades, que têm entre as suas principais características algo raro nas sociedades modernas: um ritmo de vida simples e tranquilo. Esta cultura também se manifesta por meio do fandango, dança típica do litoral paranaense, nas apresentações dos violeiros e na culinária, baseada na utilização de banana e mandioca.

Surpresa
“Quando o turista vai para a praia já sabe o que vai encontrar. Mas quando ele se atenta em buscar coisas que só aquela localidade pode proporcionar, a viagem é muito mais rica, faz toda a diferença”, ressalta o produtor cultural Eduardo Schotten, que mo­­ra em Guaraque­çaba. O ro­­teiro cultural reserva experiências interessantes. O turista pode acompanhar os rituais de pesca, fazer passeios em embarcações típicas caiçaras, como a canoa de um pau só, ou ainda acompanhar a iluminada movimentação do plâncton nas águas.

Enquanto o visitante se intera da realidade local, a comunidade também sai fortalecida. “Isso gera cidadania, principalmente entre os jovens, que se interessam pelo nosso passado para mostrá-lo aos visitantes”, afirma o mobilizador local da Ilha das Peças, Renato Pereira de Siqueira. Ele conta que este tipo de turismo está crescendo entre os visitantes de outros estados, mas ainda é restrito a pesquisadores de áreas específicas, que pretendem conhecer mais a fundo as realidades tradicionais, como de curandeiros e pescadores, por exemplo. Porém, independente da procedência do visitante, o que ele encontra na comunidade caiçara chama a atenção. “A natureza desperta a emoção nas pessoas. Coisas que são comuns para nós se destacam para o turista. Algumas pessoas chegam a chorar quando veem os golfinhos”, conta.

A proximidade com a natureza foi o que mais chamou a atenção da bancária Vania Bellinie, durante um roteiro que fez pelas comunidades caiçaras. O modo de vida tradicional, mesmo que muito distante de sua realidade, fez com que ela refletisse sobre as possibilidades de existência. “Nos faz pensar que as pessoas ainda podem viver de forma muito simples.” Ela sugere que, para realmente conhecer a comunidade que está visitando, o segredo é se enquadrar no ritmo de vida das pessoas, participando da rotina local.

* A repórter viajou à convite da Gondwana Brasil Ecoturismo

 

Reflexo positivo
Atividade movimenta a economia

Localizadas em áreas de preservação ambiental, muitas das comunidades caiçaras paranaenses contam com poucas possibilidades de geração de renda e encontram no turismo uma nova fonte de desenvolvimento. Ainda tímida, a iniciativa tem apresentado resultados animadores e é incentivada pelo Ministério do Turismo.

Moradora da comunidade caiçara de Guaraguaçu, em Pontal do Paraná, desde que nasceu, a artesã Conceição Vieira Ramos Constant, 61 anos, comemora a realização de iniciativas para receber os turistas. Ela participa de um roteiro que apresenta a cultura local aos visitantes. A iniciativa envolve cerca de 25 famílias, que também produzem artesanato vendido em uma barraca na rodovia PR-407. “As pessoas se surpreendem quando veem que fazemos artesanato com as coisas daqui, como com o couro do peixe”, conta.

De acordo com Conceição, a organização da comunidade aproxima os caiçaras e evita “que a cultura morra”. “Não sabia que nossa cultura tinha tanto valor. Também pensei em ir embora, mas estava errada. Aqui tenho muito mais oportunidade”, diz.

A sócia-proprietária da agência Gondwana Brasil Ecoturismo, Daniela Meres, vê esse tipo de roteiro como uma grande fonte de geração de renda para as comunidades. Além disso, mostra para os turistas “outras formas de vida e visões de mundo”. “É uma riqueza para poder experimentar. É preciso abrir mão de um conforto, mas o aconchego é sempre presente em um lugar acolhedor e autêntico”.
Serviço:
– Roteiro Eco-Cultural pela comunidade do Guaraguaçu. Secretaria Municipal do Desenvol­vimento de Pontal do Paraná (41) 3975-3102.
– Roteiro pelas comunidades caiçaras Gondwana Brasil Ecoturismo 3566-6339.

 

Linguajar caiçara
Além de um ritmo de vida peculiar, a comunidade caiçara também possui um vocabulário específico. Algumas palavras utilizadas pelos moradores do litoral norte do estado foram apresentadas na edição do Caderno Litoral em junho de 2009. As informações são baseadas no livro Falares Caiçaras, do professor Paulo Fortes Filho, que afirma que os caiçaras apresentam “um falar calmo, cadenciado, acentuadamente cantado e carregado de ironia”. Confira algumas expressões:

Amassador: instrumento de cozinha para amassar o feijão.
Buruaca: cesto de couro para transportar espigas de milho.

Cambicho: pau comprido no qual se suspendem os ganchos para facilitar o transporte dos pesos em equilíbrio.

Canapuva: tipo de mangue. Com a casca de canapuva se tecem redes.

Cantarininha: lugar onde se deixa a vasilha para secar e onde são colocados os potes de moringas.

Canudo de fogo: tubo de taquara cheio de trapos empapados com querosene que serve de mecha, para caminhar ou pescar à noite. Tocheiro.

Cacho: âncora de pedra. Poita usada para segurar redes grandes.

Coruja: é o mesmo que pamonha, mas cozida nas cinzas do fogão.

Estendal: estendedouro. Lugar onde se estende alguma coisa. Varal onde são colocadas as redes de pesca.

Estronca: espécie de forquilha com que se levantam objetos pesados. Espeque, escora.

Fim-Fim: pássaro que não se pode caçar. É o mesmo que Fem-Fem. É a encarnação do Saci-Pererê.

Jacube: pirão de água fria. Complemento do peixe salgado.

Meia-colher: pessoa que faz tudo.

Mancebo: moço, rapaz, jovem. Cabide para segurar roupas.

Pano-velho: peixe desfiado, preparado com molho de tomate, pimenta, alho, cebola e ervas aromáticas.

Riscar: traçar, marcar, desenhar. É o projeto da feitura da canoa. O risco da canoa.

Sabão de caboclo: lama, barro que se forma com a chuva e é muito escorregadio.

Sino samão: é o mesmo que signo de Salomão. Uma estrela com cinco pontas.

Suiteira: é o mesmo que chicote.

Tapete: cobra. É o mesmo que jararacuçu.

Taramela/Tramelo: tranca. Peça de madeira que gira em volta de um prego e serve para fechar portas e janelas.

Tendal: local onde se colocam as roupas para secar. Lugar onde se colocam as bananas para amadurecer.

 

http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/litoral/conteudo.phtml?tl=1&id=1152020&tit=Conheca-a-riqueza-da-vida-caicara