Grupos de autoajuda significam motivação para aqueles que sofrem com algum tipo de distúrbio

Folha de Londrina | 31 de março de 2009

Torneira pingando, porta rangendo, gavetas abertas, toque do telefone e trânsito movimentado. Incômodos mínimos decorridos de situações comuns que se agravam e podem causar um ataque de nervos a muitas pessoas. Coisa de louco? Não. O descontrole emocional é muito mais comum do que se imagina e as pessoas chamadas neuróticas passam apenas por um momento de insatisfação.

O termo neurótico causa estranhamento e promove o preconceito. Por isso, a autoaceitação da doença é demorada e são poucos os que se submetem ao tratamento. “Feliz é aquele que enxerga. Eu digo que nós, que participamos do neuróticos anônimos, somos uma elite privilegiada de doentes emocionais que buscaram e encontraram um caminho para a recuperação”, afirma Neide (os nomes utilizados nesta matéria são fictícios), 65 anos, frequentadora da irmandade Neuróticos Anônimos (N/A) há 15 anos.

No grupo, as pessoas com problemas emocionais têm a oportunidade de compartilhar suas experiências e escutar depoimentos de quem passa por situações semelhantes. Assim como as demais irmandades de anônimos, a recuperação vem da ajuda mútua, por meio da terapia do espelho, em que os participantes falam, escutam e refletem. São relatos de pessoas que não conseguem conter seus impulsos emocionais, sentem-se muito nervosas e, por isso, infelizes.

Não são apenas os neuróticos que têm um grupo para dividir os problemas e buscar apoio. Viciados em álcool, consumidores e devedores compulsivos, entre outros distúrbios, também contam com grupos de autoajuda (leia mais nesta página). São formas de controlar os distúrbios compartilhando impressões, dificuldades e também as conquistas.

Todo dia
No grupo do N/A, o período de recuperação dura 24 horas, que se repete diariamente. O objetivo é manter o equilíbrio emocional durante esse tempo, vivendo um dia após o outro. Para isso, os participantes usam o lema “Só por hoje evitarei o descontrole emocional”. Como consequência, os chamados neuróticos em recuperação administram seus problemas e dificuldades sem grandes sofrimentos.

A neurose é consequência de um desconforto, dor ou insatisfação. O principal motivador desse quadro é o desamor, em que a grande maioria das pessoas apresenta o quadro da perda de um amor. “Os causadores são a falta de amor e a falta de amor-próprio, quando a pessoa não se conhece, não se valoriza e não vê o que tem de bom”, analisa Neide.

Nas reuniões, os participantes têm acesso à literatura que apresenta os 12 Passos e as 12 Tradições, que pregam uma convivência harmoniosa e feliz. O tratamento é constante e conquistado a cada dia, com o conhecimento de que somos humanos, passíveis de erros e falhas. Os encontros não contam com orientações profissionais e todos compartilham seus problemas sem diferenciação.

A oportunidade de ser ouvido sem sofrer preconceitos deixou o técnico em estatística aposentado, Pedro Paulo, 56 anos, à vontade para participar das reuniões do N/A. Depois de 17 anos no alcóolicos anônimos, ele está há um ano compartilhando seus problemas emocionais e não perde nenhuma das reuniões realizadas duas vezes por semana. “Saio de lá calmo, consigo esvaziar meus pensamentos e me acalmo. Quando estou numa boa, recarrego a bateria”, conta.

Depois de passar por uma depressão que lhe rendeu, aos 30 anos de idade, a aposentadoria no emprego, o integrante da irmandade se orgulha de agora ser respeitado pela sua família e pela comunidade em que mora. “É um crescimento espiritual, moral e material”, diz, quando compara a relação com sua família antes e depois de participar do grupo, que define como o céu e o inferno.

Para Pedro Paulo, cada dia deve ser vivido de cada vez, com calma, e tudo em seu momento certo. “Só por hoje. Ontem nós conseguimos, amanhã não sabemos e a batalha é hoje. Com serenidade, primeiro as primeiras coisas”.

Compulsão sexual
A Capital também conta com uma irmandade de anônimos que sofrem de compulsão sexual. Manuel, 35, um dos integrantes do grupo, explica que o problema começa quando “extrapola o equilíbrio, o que causa um desconforto. As pessoas perdem a vida, a identidade. A gente passa a ser um escravo da situação, não existe aquela cumplicidade da relação conjulgal”.

Irmandade recente, os compulsivos sexuais anônimos não são recomendados apenas a pessoas em tratamento. Para Manuel, é uma oportunidade de ter contato com novas experiências e de auto-conhecimento. “Quem participa conhece uma realidade maior da vida. Aprende a direcionar a energia para o relacionamento, para a coragem, a humildade e a generosidade”, afirma.

Desenvolvimento da doença emocional
A irmandade Neuróticos Anônimos trabalha com o desenvolvimento das doenças emocionais como uma curva, que começa com problemas menores, passa por um estágio chamado “fundo do poço” e finaliza com a recuperação. Esses estágios são apresenta Curitiba – A irmandade Neuróticos Anônimos trabalha com o desenvolvimento das doenças emocionais como uma curva, que começa com problemas menores, passa por um estágio chamado ”fundo do poço” e finaliza com a recuperação. Esses estágios são apresentados na publicação ”Os Doze Passos e as Doze Tradições – Neuróticos Anônimos”.

A doença emocional começa quando as dificuldades deixam a pessoa triste. Os problemas aumentam, acarretam discussões familiares e trazem preocupações, infelicidade, irritabilidade e sentimento de culpa. O quadro se agrava com a perda de interesse e negligência. O meio encontrado para a fuga desta situação é a utilização de medicamentos.

É comum o uso de ”curas geográficas”, com a mudança de casa, emprego ou cidade. Ainda assim permanece o sentimento de fracasso e inferioridade, o que possibilita o uso de drogas, receitadas ou não. O próximo passo são pensamentos suicidas, solidão e severa preocupação com os problemas. Surge o medo de viver e de morrer, um medo que leva à depressão e ao pânico.

A recuperação começa quando todos os recursos de cura estão esgotados, depois do ”fundo de poço emocional”. A aceitação da doença e de ajuda leva ao entendimento de que a doença emocional é curável. A partir desse reconhecimento, nasce o otimismo, a tensão diminui e são tomadas novas atitudes. A pessoa passa a encarar a vida ”numa boa”, o auto-respeito volta a seus sentimentos, assim como a coragem, a fé em um poder superior e o prazer de viver.

Matérias produzidas sobre o assunto, pela jornalista Marian Trigueiros:

“O melhor de tudo é não ser julgada” 
Diante dos apelos das vitrines do comércio, Ana, 33 anos, não conseguia mais controlar sua vontade de gastar. “Tudo me chamava muita atenção e, para completar, sempre gostei de perfumes, roupas e maquiagem. Acabou se tornando uma compulsão, mas que para mim era somente um prazer, um momento de euforia.”

Antes de conhecer o Devedores Anônimos, Ana diz que tirava de um lugar para cobrir outro. “Fazia empréstimos, gastava todo o cartão de crédito e limite da conta. Minha dívida chegou a mais de R$ 5 mil, para uma pessoa que recebe um salário de R$ 700” revela.

Até conhecer o grupo, foram anos tomando remédios, tratamento com psicólogos. “O DA me proporcionou a identificação com outras pessoas. No grupo, não me condenam ou me chamam de caloteira. Sei que não posso sair de lá, mas hoje tenho dimensão do grande passo que já dei. Sempre que posso, ajudo a divulgar a doença, que nos faz sofrer muito”, diz ela, que frequenta as reuniões há 11 meses.

História parecida e não menos dolorosa é a de Maria Rita, que chegou a acumular mais de R$ 15 mil em dívidas. “Sempre fui controlada, mas nos últimos anos desenvolvi a compulsão. Foram cinco anos só comprando, tanto que cheguei a ter 980 pares de sapato e mais de 40 cartões entre bancos e lojas. Ninguém percebe quando isso (vício) começa, apenas quando já está no buraco”, alerta ela, que hoje anda apenas com o cartão do plano de saúde e de ônibus.

Depois de um ano e meio participando do DA, finalmente conseguiu equilibrar as finanças. “Sei que em um ano não terei mais nenhuma dívida, me procure novamente para confirmar. Agora, só compro o que preciso. No Natal, não gastei uma agulha, você sabe o que é isso?”, brinca. “O apoio do grupo foi fundamental nesse processo, pois posso compartilhar minhas dificuldades.”

AA é considerado uma irmandade
Em Londrina, o Alcoólicos Anônimos (AA) -que nasceu nos EUA, em 1935- oferece reuniões semanais desde 1988. É considerado uma irmandade, em que homens e mulheres compartilham suas experiências e principalmente esperanças com o objetivo de resolver o problema em comum. Segundo um dos coordenadores (uma norma do grupo não permite que os participantes sejam identificados), que deixou de beber há 25 anos, para a pessoa participar é necessário seguir os 12 passos da filosofia do AA.

“O primeiro é reconhecer o alcoolismo como doença e admitir sua impotência diante dela. Não somos terapeutas profissionais, porém, o trabalho de ajuda mútua e compartilhamento das experiências de recuperação fazem do grupo uma ferramenta no alcance da sobriedade. Contudo, cada caso deve ser avaliado separadamente; há aqueles que ainda podem necessitar de intervenção médica”, revela.

Seguindo o mesmo princípio e filosofia do AA, o grupo de Devedores Anônimos (DA) também preza a ajuda de uns aos outros na recuperação do endividamento compulsivo. Também conhecida como oneomania, é o distúrbio no controle simples no trato com o dinheiro. Além da troca de informações, por meio das reuniões, quem sofre do mal tem a possibilidade de receber orientação e educação com planejamento financeiro.

“Antes de conhecerem o DA, os devedores se consideravam pessoas irresponsáveis ou moralmente fracas. Nas reuniões lidamos com todos os tipos de gastos e endividamentos: objetos, jogos, prostituição”, lembra um dos integrantes do grupo, W. Jorge. Além das reuniões semanais, o DA realiza uma espécie de reunião fechada, com um trabalho individual, chamado Alívio de Pressão.

A Secretaria Municipal de Saúde oferece a Terapia Comunitária (TC). Presente em 12 unidade básicas de saúde, é um grupo de autoajuda que trata as pessoas em suas fragilidades. “O lema é ‘botar para fora’ e, para isso, falamos dos mais variados assuntos, como desemprego, insônia, alcoolismo. Temas que os afligem em seu dia a dia. Ninguém vai dar lição de moral, mas compartilhar as experiências de cada um e suas histórias de superação. Com isso, o resultado é, principalmente, a diminuição de doenças psicossomáticas”, explica Maria da Graça .